top of page

Entrevista a Melânia Gomes

1- Como iniciou a sua carreira como atriz? A minha carreira como atriz profissional só iniciou aos 18 anos quando fui para Lisboa, quando fiz um casting para teatro amador. Depois passado algum tempo, fiz um casting para teatro profissional. A transição de teatro amador para teatro profissional aconteceu em setembro de 2003. Fiz o casting e depois de várias etapas, ficamos apenas 2 candidatas. Fui aceite, fiquei muito feliz e a partir daí, as coisas nunca mais pararam.


2- Qual o papel que mais gostou de desempenhar como atriz até hoje e qual o mais exigente? A que eu mais gostei foi também a mais exigente a todos os níveis. Foi a Penélope, que era uma cozinheira galega. A novela foi passada nos Arcos de Valdevez e eu fazia de cozinheira galega, apaixonada por um lobisomem, na telenovela “Deixa que te leve”. A Penélope foi a personagem que eu mais gostei. Foi também a mais exigente porque eu, uma semana antes de começar a gravar, não era para fazer essa personagem. Era para fazer a Graça, a amiga da Penélope. Estudei a Graça durante um mês! E oito dias antes, estava eu sentada para começar a fazer o teste de imagem e a maquilhadora perguntou-me se a minha personagem era a Penélope e eu respondo que não que era a Graça. E ela insistiu que a minha personagem seria Penélope, perguntando-me se ainda não tinham falado comigo e eu disse que não. Conclusão, como eu estava sempre a perguntar quem era a Penélope, porque era a melhor amiga de Graça, e como não arranjaram ninguém para fazer de Penélope, porque não arranjaram ninguém que falasse galego, puseram-me a mim a fazer de Penélope e arranjaram outra Graça que era mais fácil. Só que na altura fiquei muito triste. Primeiro, porque foi difícil aceitar porque eu achava que tinha sido uma despromoção (mas acabou por ser uma promoção), ter que falar galego e ter que aprender em 3 dias. Tive que gerir isto e começar a aprender. Na 1.ª semana só aprendi aquilo que ia gravar mas durante 1 ano foi um processo que eu estava em constante aprendizagem. Ia ao instituto galego cá em Portugal (que por acaso era muito perto da minha casa) e passava lá a vida, a aprender mais expressões, cantigas, tudo,… Foi muito exigente porque eu estava a fazer teatro à noite e estava com as gravações e muitas vezes tinha que vir de carro sozinha. Acabava o espetáculo à 1 hora de manhã e tinha de vir de carro sozinha para os Arcos para começar a gravar às 8 horas. Gravava o dia todo, para depois voltar a descer, para ter o espetáculo à noite e às vezes voltar a subir. Foi muito duro mas foi muito bom! Confiaram muito em mim, apostaram muito em mim, deram-me muita liberdade e não havia limite para a minha criatividade. Tudo o que eu propunha era aceite. Sem dúvida que essa liberdade nunca mais tive. Custou muito mas foi uma liberdade muito boa e até hoje as pessoas lembram-se e portanto valeu a pena!


3- Sabendo que tem um vasto currículo com atriz. Onde gosta mais de representar: teatro ou televisão? Teatro! Eu gosto mais de fazer teatro porque foi onde me estriei. Com 4 anos comecei a fazer teatro aqui em Viana. É linguagem que me é mais familiar. Acho que é onde nós conquistamos uma densidade e profundidade maior, porque ainda vamos tendo algum tempo para preparar os projetos. O tempo é cada vez mais curto, infelizmente, por uma questão monetária. Mas a televisão exige outras coisas de mim, exige uma rapidez muito maior, exige uma atenção maior porque há muita coisa a distrair-nos. E nisso, o teatro ajuda muito, porque temos o colega, temos o público, há muita coisa a acontecer e então temos de estar sempre focados! Em teatro o tempo não para! Está sempre a contar. Quando o pano abre, só para quando o pano desce. Eu gosto disso! De certa forma, o teatro preparou-me para a televisão mas eu continuo a gostar mais do teatro, pelo contacto direto com o público e pelo feedback imediato. Claro que não chega a tanta gente, como quando se faz uma novela que chega ao mundo inteiro. Mas há qualquer coisa “no aqui e no agora”, estar ali completamente em direto e sem rede que me fascina mais. Gosto mais desse processo, de estudar bem as personagens, o que vamos fazer e de haver essa profundidade. Da televisão gosto, mas exige outras coisas de mim. Mas se eu tiver que escolher, entre uma coisa e outra, aquilo que me deixa mais feliz é fazer teatro.


4 - Dentro dos diferentes tipos de teatro, com qual se identifica mais? Eu acabo por ter feito mais comédias e espetáculos de revista. Mas isso é o que é mais fácil e acaba por não ser aquilo com que eu me identifico mais. Eu, como atriz, gosto de desafios. Sou uma pessoa que gosta de experimentar outras coisas e de fazer coisas novas. Nunca fiz teatro clássico, quer dizer, fiz Garcia Lorca, trabalhei em Almada. Mas os grandes clássicos nunca fiz, mas gostava de fazer só para ter essa experiência, para ter o outro lado. Acabo por fazer muito mais comédia. Dentro do teatro sinto-me confortável, mas não consigo escolher um estilo. Ainda há pouco tempo eu achava que não gostava de musicais, embora o meu marido seja um grande ator e cantor de musicais. Portanto, odiava musicais, achava eu, até que fiz um musical aqui em Viana no Teatro Sá de Miranda com o Fernando Gomes e aí a minha opinião mudou completamente. Hoje em dia, acho o teatro musical um teatro extremamente exigente e completo. É muito mais fácil transmitir uma emoção a falar do que transmitir uma emoção a cantar porque isso não é da nossa natureza. Nós, naturalmente, falamos e expressamos as nossas emoções com o nosso corpo e com a nossa voz falada. Transmitir isso com a nossa voz cantada é muito mais difícil. Portanto, até de musicais eu agora já gosto! Não consigo escolher nenhum estilo. Gosto de todos!


5 - Sabemos que atualmente se encontra a filmar em Viana. Como se sente a trabalhar na sua cidade? Sinto-me muito feliz porque, como vocês sabem, eu passo a vida a falar de Viana e já há muito tempo que não se gravava nenhuma novela cá. A última que se gravou foi “Os Lobos” e eu era pequena. Eu sentia que valia a pena, que já estava mais do que na hora de se voltar a fazer uma novela cá em Viana. Hoje em dia, como Viana está cada vez mais bonita, quando soube que essa novela ia acontecer, fiquei muito feliz! Quando soube que também ia fazer parte, fiquei muito mais feliz ainda! Embora a personagem não tenha correspondido às minhas expectativas a nível individual, a nível global fico muito feliz mesmo que não tivesse chegado a participar porque de facto Viana merece, Viana é uma cidade muito bonita.


6 - Como têm decorrido as gravações? Quais os locais mais emblemáticos em que já gravaram? As gravações aqui em Viana já terminaram e as restantes gravações estão praticamente terminadas. Mas a novela vai ficar no ar ainda durante algum tempo. Eu gostei muito de gravar no Largo de São Domingos. O momento alto para mim foi desfilar nas festas da Sra. da Agonia em personagem, em Tina de mordoma no desfile da mordomia. Esse para mim foi o momento alto. O maior desafio foi dançar com o Grupo Etnográfico de Areosa, porque nunca tinha dançado o “Vira” e aprendi tudo num dia para gravar. Foi esse o desafio mas, em termos de emoção, foi desfilar na Sra. da Agonia.



7 - Como se prepara para interpretar os seus papéis? Depende do papel, mas normalmente o método que utilizo é procurar semelhanças, é aproximar vivências pessoais às daquela personagem. Se tenho oportunidade, também faço perguntas ou tento encontrar respostas no próprio guião. Muitas vezes, também estudo as outras personagens para descobrir mais sobre a minha personagem. Tenho de estar muito atenta àquilo que as outras personagens falam de mim, àquilo que digo e que não digo… Por isso é que gosto mais de teatro, porque temos mais tempo para construir a personagem e tenho alguém que realmente responde às minhas perguntas. Em televisão, raramente tenho alguém que responde às minhas perguntas com essa certeza, porque a novela é uma obra aberta que vão escrevendo aos poucos. Também há outras formas de trabalhar a personagem que é de fora para dentro. Ver primeiro como é a personagem fisicamente, porque isso também nos ajuda a perceber como ela é por dentro. Mas eu gosto mais de fazer o contrário, de descobrir como ela é por dentro. Tem de ser um trabalho contínuo, profundo e super atento e sempre de dentro para fora e de fora para dentro.


8 - Quais são as suas ambições enquanto atriz? Qual o seu papel de sonho e com quem desejaria trabalhar? Eu adorava trabalhar com a Fernanda Montenegro, com a Lília Cabral, com a Regina Duarte… eu gostava muito de fazer uma novela na Globo! O papel em si, exatamente o que vou fazer, não importa! Eu gostava de trabalhar fora de Portugal. Também gosto muito do mercado Espanhol. Mas há qualquer coisa no Brasil, no método que eles trabalham e na profundidade que eles têm em televisão. É essa intensidade e essa entrega que me agrada, com que eu me identifico. Se calhar, seria um desafio para mim, por exemplo, interpretar uma personagem que fala língua gestual que eu não sei. Tinha de aprender para a minha personagem falar. Fazer uma novela inteira e só expressar-me em língua gestual. Gostava de fazer uma personagem bipolar, uma personagem esquizofrénica, uma personagem especial e com uma história, com um objetivo, uma personagem com que as pessoas se identifiquem. Que não fosse a boazinha e a mazinha, ou a coscuvilheira e a sonsinha. Estou cansada de coisas básicas. Queria um desafio! Fazer rir ou fazer chorar só pelo amor é muito linear. Gostava de fazer uma personagem que fosse racista. Eu gosto sempre de coisas contrárias a mim porque é aí que eu melhoro e que me preparo. E também queria uma personagem que tivesse uma mensagem. Algo que eduque as pessoas em casa, que as ponha a ver aquele tema com outros olhos e a pensar.


9 - Quem são as suas referências? Quem a inspira? Eu gosto muito da minha querida Eunice e do Nico. O Nicolau Breyner, era uma grande inspiração para mim, pela forma como ele levava o trabalho de uma forma leve, feliz e despreocupada. E a Eunice pela forma séria, focada, determinada. As minhas inspirações acabam por ser pessoas clássicas, que encaram a profissão de forma muito séria e muito disciplinada, por pessoas que embora não sejam da mesma geração ou de uma geração próxima à minha, não dispensam a boa disposição, o humor e a leveza no trabalho. Graças a Deus, eu fui trabalhando com muitas dessas pessoas. Cheguei a representar com o Raúl Solnado, em revista, onde fizemos uma rábula. Mesmo que não trabalhássemos diretamente fui sempre vendo essas pessoas mais velhas a trabalhar. O Mário Viegas, lembro-me de o ver na televisão quando era pequena e foi uma referência para mim. De certa forma, o Herman José também foi uma influência para mim. A Marina Mota, a Eunice, a Manuela Maria, a Lia Gama, o Nico, o Rui de Carvalho. Várias pessoas, de várias gerações e de vários estilos, porque eu sempre gostei de muitas coisas diferentes. E também malta mais nova! Também me inspiro e gosto de ver a minha geração… e até a geração mais nova. Sempre que mostram verdade, entrega, frescura, amor, isso inspira-me porque é muito fácil perder esse brilho e o trabalho não pode virar uma obrigação! O trabalho tem de ser sempre uma bênção e uma alegria, todos os dias. Mesmo que a personagem não seja desafiante, mesmo que a personagem seja básica, mesmo assim… há sempre pessoas que estão lá para ver!


10 - Até hoje com quem mais gostou de contracenar? Com o Nico, o Nicolau Breyner, gostei muito. É complicado! Gostei muito de contracenar com ele e, como também já tenho muitas saudades, e com os outros posso voltar a contracenar, escolho o Nico.


11 - Já alguma vez contracenou com pessoas com deficiência? Não e gostava muito… existe esse estigma e fecham-se as portas por uma questão de dinheiro e de tempo.É uma questão de rentabilizar. Provavelmente, têm medo de apostar e não dão possibilidade a que isso aconteça. Até podem fazer uma situação pontual, esporádica, mas não contratam por medo que a pessoa não corresponda. Porque os timings em televisão… Aquilo é sempre a “voar”, não há hipótese de parar e repetir, aquilo é sempre a gravar. E por isso não, nunca representei mas gostava e de interpretar também.


12 - Como lida com a fama? De uma forma muito natural porque a fama é consequência do que eu faço. Não é o que eu sou, nem o que eu faço, é uma consequência… Tem coisas boas e coisas más. Eu acabo por me fixar, dar mais atenção às coisas boas porque eu acredito que aquilo a que damos foco, cresce e não gosto de dar foco a coisas más, só a coisas boas. A fama acaba por ter um lado bom que é ao que eu me agarro, que é o chegar às pessoas. A consequência do meu trabalho cria essa visibilidade, esse chegar a todas a gente, o passar uma mensagem, divertir ou educar. Essa fama permite que eu possa dizer qualquer coisa, ou que eu possa apontar ou indicar situações que mereçam ser ouvidas, das quais as pessoas possam andar distraídas. Ao ter essa visibilidade, essa fama, vou ajudar a dar foco àquilo que eu acho importante as pessoas saberem ou ajudarem. Acabo por utilizar essa fama de uma forma proactiva e positiva, para dar o alerta para algumas coisas. Os aspetos negativos da fama é a falta de privacidade, o estar constantemente a trabalhar e não conseguir desligar. Porque um funcionário normal, tem o seu horário e as pessoas só vão ter com ele dentro daquele horário. Ora, comigo, vão ter a qualquer hora. Não é muito bom estar numa urgência de um hospital, ter alguém que nos vem pedir um autógrafo e uma fotografia, naquele momento. Essa pessoa só tem aquele momento, aquela oportunidade e quer agarrá-la. Portanto, esse é o lado menos bom da fama, com o qual eu lido de uma forma muito natural. Eu peço desculpa e explico à pessoa que me sinto muito doente e que não consigo corresponder ao que me está a pedir. Porque eu tenho de dizer como me sinto. Eu fui ensinada a ser verdadeira e honesta, por isso acho que devemos ser honestos e verdadeiros connosco e com os outros. Se nos estamos a sentir mal, devemos dizer e se nos estamos a sentir bem, também o devemos dizer. Portanto, quando eu não gosto de alguma coisa que esteja a acontecer, eu digo. Por exemplo, já aconteceu de eu estar a fazer uma viagem de comboio e durante toda a viagem, ter uma senhora a olhar sempre para mim. Para ela, era como se estivesse a ver televisão ou a ver um filme mas, para mim, era a minha vida e a minha intimidade. Aquilo começou a enervar-me, a deixar-me desconfortável, olhei para a senhora e fiz-lhe o mesmo. Ela percebeu que me estava a incomodar e desviou o olhar. É importante dizermos o que sentimos, porque senão o fizermos, podem achar que somo arrogantes, maldispostos e mal-educados. Eu prefiro dizer à pessoa que naquele momento não posso, do que virar as costas e ignorar. Tenho que ter muita paciência e saber falar com as pessoas, porque é importante a opinião pública, que as pessoas gostem de mim. Sou atriz e trabalho para as pessoas e não posso nunca me esquecer desse fator. E porque acima de tudo, não fui educada a ser malcriada. Por esses 2 motivos, respiro fundo, respondo com o coração e com educação.

13- Quais são os seus projetos futuros? Eu já deixei de fazer projetos para o futuro há muito tempo, porque sempre que faço projetos corre tudo mal. Sempre fui uma pessoa muito preocupada, em saber o que quero fazer, em ter tudo muito estruturado. Mas depois a vida deu-me umas voltas boas e más, então deixei de ter expectativas. Os meus projetos para o futuro vão ser continuar a estar atenta a mim e aos outros, estar alerta da minha saúde física, mental e emocional. Continuar a cuidar-me bem, a comer bem, a fazer exercício, a meditar - que é uma coisa que eu faço e que me ajuda muito -, a fazer yoga, a trabalhar com um sorriso no rosto e a agarrar todos os desafios que posso. Viver o momento presente de uma forma muito verdadeira, porque a maior parte das pessoas vive no passado ou no futuro, vive com a angústia do que aconteceu e com a ansiedade do que vai acontecer. E eu já fui assim, claro! E ainda tenho alguns momentos assim. Mas, hoje em dia, já tenho consciência e sei qual o momento que estou a viver. Não é que eu não me acautele e não tenha sonhos, como ir para Brasil, fazer muito cinema e muito teatro… E levo todos estes desafios para o meu trabalho e para as outras pessoas, mas sempre com os pés bem assentes na terra e muito presente. E ser mãe! E fazer muitos trabalhos, muitas personagens e ser muito recetiva!


Posts Recentes
bottom of page